A Casa Antero de Quental acolhe a exposição Recriaturas – Imagens sem dogmas nem tostões, de João Rios, poeta que trocou a caneta pela tesoura nesta incursão na arte da colagem e na criação poética visual. João Rios é o pseudónimo do vilacondense Manuel Vasques, com mais de uma dezena de livros publicados, entre os quais No Fogo dos Outros, O Cão dos Dedos, Súmula da Negação, Livro das Legendas, Aprendizagem Balnear ou O Osso da Tristeza. Integra o Colectivo Silêncio da Gaveta e participa regularmente em eventos literários.

Recriaturas inaugura a 31 de outubro, pelas 17 horas, com um apontamento poético pelo Colectivo Silêncio da Gaveta. A entrada é livre.

A mão criminosa não existe, a mão não sabe o que faz. Ou melhor, sabe se a cabeça der essa informação ao Cão dos Dedos. O criador explica melhor quando conclui a Arrumação das Pedras, as palavras têm gente dentro e quando se revelam há sempre alguém que diz nada ou encontra outros substantivos. Este é o país dos cus de garrafa virados ao Sol e é por via disso que arde, consta que também a trovoada faz das suas e a e-redes também faísca. Somos todos inocentes ao ponto de acharmos que não há fósforos envolvidos nisto, nem gasolina que está ao preço das guerras, mas Não é Grave Ser Português. As velas ardem nos cemitérios para alumiar as almas que já não ardem. O artista é um fogareiro que se eleva entre Romeu e Julieta, e consegue Reter o Amor no Gancho do Talho, nasceu enfeitiçado No Fogo dos Outros e na alquimia do Ópio das Tempestades. No entanto, reserva-se aos anos em que perdeu o filtro e é bem capaz de suster a respiração ao observador pelo Osso da Tristeza. A sua quietude não tem paralelo nem rima, é um poema roubado à inquietação, ao improvável, ao imprevisto. Faça-se uma colagem de tudo isto, imagine-se um bombeiro no papel de salvador da pátria a escrever com a mangueira no ar, Recriaturas, e a pincelar “imagens sem dogmas nem tostões”. O poeta João Rios, desta vez para escrever poemas trocou a caneta pela tesoura. Eu imagino-o sentado a sorrir para o infinito.
– José Peixoto

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